Paredes descascadas carregam a marca da força do tempo, e o tempo sempre passa. Cura memórias, medos, corações e ressacas. O tempo é uma força da natureza. Ele nos atravessa com ferocidade enquanto nos engana, nos deixando pensar que somos nós quem o atravessamos. Enquanto existimos por aqui, ele não para.
Percebo o tempo passando nos fios de cabelo brancos que aparecem teimosos na minha cabeça. Engraçado pensar que desde sempre, conheci minha mãe com cabelos grisalhos. Já meu pai morreu com alguns poucos fios brancos mais rebeldes. Com 41 anos posso dizer que estou no meio termo entre os dois.
Nesses dois anos da pandemia muitas amigas queridas assumiram seus grisalhos, e ostentam lindas cabeleiras prateadas. Eu demorei para libertar meus fios brancos. Ainda me acho jovem demais para eles, mas aos poucos os aceito com mais gentileza. Junto com eles, vieram rugas teimosas ao redor dos olhos, que assumi por não ter como disfarçar.
Tal uma parede descascada, o tempo deixa em mim sinais de sua passagem. Sinto como se eles não tivessem chegado aos poucos, mas de salto. Como na canção dos Titãs, olho no espelho e percebo que já não tenho mais a cara que eu tinha. Nem o corpo. A pele já não é mais a mesma, as pernas amolecem a cada dia apesar do exercício, que a cada dia sai mais difícil e do qual me recupero mais lentamente. Será isso envelhecer? Dizem que quarenta anos é “a meia idade”, então até onde isso vai?
No tarô a carta do Eremita manifesta essa instalação da velhice. Afinal, quem é o Eremita senão um velho rabugento? Para ele e seu cajado, os obstáculos são ultrapassados a passos lentos. O Eremita, como todos os velhos, tem seu próprio tempo das coisas.
O tempo dos velhos é o tempo das pedras. Assim como os minerais se cristalizam, os velhos cristalizam ideias, opiniões, crenças e manias. Alguns cristalizam até o próprio tempo, revivendo um passado em eterno looping, num curto-circuito de ideias misterioso chamado Alzheimer.
A lentidão dos velhos é a lentidão da prudência, de quem já foi muito escaldado pelo mundo e carrega o peso da vida nas costas. Por isso, precavidos, insistem em jamais sair de casa sem um guarda-chuvas, um casaquinho, uns trocados – ou seu cajado e a lanterna. Afinal como prosseguir sem poder ver e sentir o que está adiante?
Até em sua teimosia os velhos são sábios. Porém o conflito entre o nosso tempo e o tempo deles, não nos permite assimilar. Temos pressa, urgências, corremos sempre contra o tempo. Talvez por isso, categorizamos a sabedoria dos velhos à rabugice. Afinal, como entender os que não nos dispomos a ouvir? É um conflito de tempo, uma diferença inconciliável de velocidades.
De qualquer forma, com a vantagem dos muitos anos à frente, os velhos sempre vencem. Ora por teimosia, ora pelo cansaço, com suas ideias que de tão fixas, nos fazem desistir de discutir. É o que é.
Vejo o Eremita na teimosia ranzinza da minha mãe. Uma obstinação endurecida, inflexível, plena de certezas tão profundamente enraizadas como uma velha figueira. Uma insistência que de tão caprichosa, me faz rir, mesmo quando passo raiva. Aprendo mais nas tardes com ela sobre o Eremita do que aprenderia em cem aulas de tarô. E aprendo sobre mim.
O mesmo cabelo, a textura que com o passar dos meses muda com os fios brancos. As rugas que teimam em aparecer precisamente nos mesmos lugares. Carregamos o mesmo nome, somos fisicamente parecidas. Percebo que eu também já estou ficando ranzinza e também já tenho minhas ideias fixas. É, estou no meio do caminho e até onde isso vai? Uma parte do futuro vejo nela todos os dias, a outra aos poucos vou descobrindo em mim. Com o tempo.
